Introdução
Primeiramente, quero expressar a minha imensa satisfação em escrever sobre um tema que despertou grande interesse durante a minha graduação. Foi a partir desses estudos que minha percepção sobre a língua se ampliou, permitindo-me enxergá-la não apenas como um conjunto de regras rígidas, mas como algo palpável, compreensível e profundamente fascinante.
Esse contato transformou a maneira como passei a compreender os estudos linguísticos, levando-me a perceber a língua como um fenômeno vivo, social e intimamente ligado às pessoas e às suas realidades.
Diante disso, surge uma pergunta central — especialmente entre educadores e estudiosos da língua que utilizamos para nos comunicar e atribuir sentidos às nossas experiências no mundo: por que existem diferentes gramáticas? É a partir dessa questão que este texto se propõe a refletir, apresentando alguns tipos de gramática e suas respectivas funções.
Gramática normativa
A gramática normativa é o estudo que sistematiza regras que privilegiam uma forma considerada correta de escrever bem e de falar bem, respeitando a chamada norma culta. Ela é muito importante, principalmente em contextos formais, como na escrita acadêmica, em concursos, documentos oficiais e situações em que se exige um padrão linguístico.
O problema é que, muitas vezes, essa gramática é usada como uma forma de avaliar ou julgar um determinado falante por não estar seguindo a norma culta. É notório percebermos, nas redes sociais, internautas fazendo julgamentos dos outros com base puramente na forma de escrever, pelo fato de não seguirem a norma culta da língua. Um grande erro e equívoco, quando usada dessa forma, que acaba gerando preconceito linguístico e, lamentavelmente, exclusão.
Muitos acabam sentindo esse peso a ponto de se inibirem, deixando de se comunicar, seja oralmente ou pela escrita, por acreditarem que serão avaliados ou julgados por não seguir a norma padrão. Em certa medida, essa sensação também já me atravessou, fazendo com que, em alguns contextos, eu refletisse sobre a forma como sou percebido ao me expressar linguisticamente.
Gramática descritiva
É justamente nesse ponto que entramos na gramática descritiva, que propõe um olhar diferente sobre a língua, afastando-se da lógica do julgamento e da correção a qualquer custo. Quantas vezes sentimos muito mais vontade de conversar com pessoas mais humildes, que ainda não têm nível superior, pessoas do interior que não seguem ou não têm conhecimento sobre a norma padrão? Com elas, geralmente nos sentimos super à vontade para conversar, não é mesmo? Isso acontece porque, nesses momentos, não estamos presos à norma culta, mas à forma como a língua é realmente usada para comunicar.
A gramática descritiva descreve a língua tal como ela é usada no dia a dia, sem fazer juízo de valor sobre o que é certo ou errado. Ela se preocupa em observar como a língua está estruturada e funciona nas diferentes situações e contextos, sem hierarquizar nem julgar as formas de falar, ainda que o preconceito linguístico exista socialmente.
Foi nesse momento que encontrei um dos aspectos que mais me chamou a atenção quando comecei a estudar a língua portuguesa na universidade. Ao comparar esse contato com minha trajetória no ensino médio, percebi que minha formação anterior foi bastante limitada nesse sentido, pois, à época, não fomos incentivados a olhar para a língua portuguesa por esse outro ângulo. Tivemos, basicamente, contato com a gramática normativa. Considero que isso se deve, em parte, às condições de formação docente daquele período, já que muitos professores ainda estavam em processo de formação ou não dispunham de uma preparação acadêmica que permitisse trabalhar a língua de forma mais ampla e crítica, havendo também, em alguns casos, limitações de ordem metodológica.
📚 Sugestão de leitura
Para quem deseja se aprofundar no tema do preconceito linguístico, recomendo este livro de Marcos Bagno:
👉A Língua de Eulália – Marcos Bagno
Gramática histórica
A gramática histórica traz uma preocupação com os estudos da língua ao longo do tempo, desde os períodos mais recentes até os seus primórdios. Ou seja, busca compreender os processos pelos quais a língua foi sendo formada, transformada e modificada até chegar às formas que conhecemos hoje.
Esse tipo de conhecimento é importantíssimo para desenvolvermos um olhar mais crítico sobre a língua. Quando tive contato com a gramática histórica pela primeira vez, isso me fez abrir ainda mais a mente, pois eu nunca imaginaria que a língua pudesse ter passado por processos de mudança tão profundos, nem que suas origens fossem tão complexas. Compreender esse percurso nos ajuda a perceber que a língua muda, se adapta e acompanha as transformações da sociedade.
Gramática internalizada
Já a gramática internalizada parte da ideia de que a capacidade linguística é inata, isto é, que todo ser humano nasce com uma aptidão natural para desenvolver a linguagem e se comunicar. De acordo com Noam Chomsky, o indivíduo possui uma competência linguística internalizada que serve como base para a aquisição da língua.
Em outras palavras, a criança não aprende a língua apenas por repetição. Ela utiliza os estímulos externos — os dados linguísticos aos quais é exposta, comumente chamados de input — para organizar, formular e produzir seus próprios enunciados, com base nessa estrutura linguística inata. Isso explica, por exemplo, como uma criança é capaz de construir frases que nunca ouviu exatamente daquela forma, demonstrando que internaliza regras e padrões da língua a partir do contato com o meio linguístico.
Quando usar cada tipo de gramática
Cada tipo de gramática tem sua função e seu espaço. A gramática normativa é fundamental em contextos formais, como na produção de textos acadêmicos, redações escolares, concursos públicos e documentos oficiais, em que se exige o respeito às regras da norma padrão.
A gramática descritiva nos ajuda a compreender e respeitar as diferentes formas de falar presentes no dia a dia, como as variedades regionais, sociais e culturais da língua. Por exemplo, quando analisamos a fala cotidiana das pessoas, expressões populares ou modos de falar característicos de uma comunidade, sem classificá-los como certos ou errados, estamos lidando com uma perspectiva descritiva.
Já a gramática histórica nos permite entender a evolução da língua ao longo do tempo, como as mudanças de palavras, sons e estruturas. Um exemplo disso é compreender por que palavras do português atual têm origem no latim, ou como certas formas antigas deixaram de ser usadas, enquanto outras se transformaram e permanecem até hoje.
Por sua vez, a gramática internalizada explica como adquirimos a linguagem desde a infância. É por meio dela que entendemos, por exemplo, como uma criança pequena consegue formar frases que nunca ouviu exatamente daquela forma, demonstrando que não está apenas repetindo, mas aplicando regras que internalizou a partir do contato com a língua.
O problema não está em nenhuma delas, mas no uso exclusivo de apenas uma, desconsiderando as outras.
Conclusão
Para concluir, é importante deixar claro que os diferentes tipos de gramática que conhecemos, a partir dos estudos linguísticos, correspondem a diferentes formas de compreender e analisar a língua. Cada uma delas cumpre uma função específica e contribui, à sua maneira, para uma visão mais ampla do funcionamento linguístico. Quando consideradas em conjunto, essas gramáticas nos ajudam a perceber que a língua não é algo rígido ou imutável, mas um fenômeno vivo, histórico, social e profundamente humano.
Esse entendimento amplia nosso arcabouço teórico e metodológico, especialmente no contexto educacional, pois possibilita práticas de ensino mais conscientes, críticas e inclusivas. Ao compreender que não há apenas uma única forma legítima de usar a língua, o estudante passa a enxergá-la como instrumento de comunicação, identidade e participação social, e não apenas como um conjunto de regras a serem decoradas.
Dessa forma, o conhecimento sobre os diferentes tipos de gramática permite que o indivíduo faça um uso mais adequado da língua em diversas situações, conforme o contexto exige, utilizando-a com consciência, segurança e sem medo de se expressar. Mais do que saber regras, trata-se de compreender a língua em sua diversidade e reconhecer o seu papel na construção das relações sociais.
